Filosofia Tautológica: o Poder de Sauron

Prólogo
Por que Um Anel?


Você já se perguntou por que Tolkien escolheu especificamente um anel para representar o poder? Por que que com tantas opções mais letais ele escolheu justamente um objeto inofensivo e incapaz de representar perigo? Não me parece um descuido, mas uma escolha. É evidente que ele escolheu um anel não pelo seu poder de dano, mas sim pelo seu poder simbólico.

Aqui é importante que façamos uma distinção entre alegoria e símbolo, porque ter isso em mente é fundamental, não somente para entender a obra de Tolkien, mas também para entender a realidade que o símbolo do anel aponta.

A alegoria, como o próprio Tolkien dizia, é rígida demais, ela representa uma correspondência direta de um conceito fixo, que sem esse conceito fixo a alegoria desaba. O ponto principal que a alegoria difere do símbolo é que a alegoria direciona a imaginação para um significado pré-determinado, direto, enquanto o símbolo é a matriz das intelecções, ou seja, o símbolo é um ponto de partida e não um ponto de chagada.

Tolkien já dizia da aplicabilidade que um símbolo pode ter. Isso permite que o símbolo se molde às reflexões pessoais da pessoa e não que a pessoa se molde aos conceitos do símbolo. É claro que isso não significa que o símbolo é algo completamente subjetivo ou relativo, porque se a gente o encarar dessa forma, ele perde toda sua força de impressão. Na verdade, o símbolo é objetivo, sempre se refere a algo, porém ele é flexível. E essa flexibilidade se dá pela sua qualidade de ser uma linguagem universal do acontecer.

Toda a inteligência consiste em reconhecer três elementos fundamentais da linguagem: o signo, que é o sinal, som ou imagem; o significado, que é um conjunto de palavras que descreve o signo; e o referente, que é o elemento do mundo real ao qual o símbolo aponta. A linguagem mito poética é o que melhor ilustra um símbolo. O mito é uma narrativa simbólica que torna visível uma estrutura invisível do real. A estrutura do mito é analógica, não causal. Trabalha com imagens densas de significado que apontam para a experiencia humana.

Toda filosofia, as religiões, a ciência, as artes, a linguagem, as coisas brutas e os seres vivos, os astros e os átomos, toda a gama universal, tudo é símbolo, tudo indica, tudo aponta, tudo se refere a algo; que nossos olhos e nossa compreensão não podem abarcar em sua plenitude. Como assim falou Albert Camus em seu livro “O Mito de Sisifo”:

“Um símbolo sempre ultrapassa aquele que o usa e o faz dizer na realidade mais do que tem consciência de expressar.”

Com isso em mente, compreendemos que a inteligência simbólica é a matriz de todas as formas de inteligências que existem, portanto, a compreensão dos símbolos é o começo de toda educação.

Capítulo 1
O fenômeno do Poder e como ele se manifesta.

Para facilitar nossa compreensão, podemos simplificar o Poder em três tipos existentes: o poder bruto da força física ou militar; o poder monetário; e o poder teórico das ideias. O poder bruto, que é o mais evidente, é imediato, se efetiva no ato da imposição pela força. O poder monetário é mais sutil, ele consiste em proporcionar uma certa vantagem. Já o poder intelectual leva mais tempo para se efetivar, pois ele é um processo de incubação de uma certa ideia ou teoria. Evidentemente, o poder de Sauron, na fantasia, é o poder da força bruta, mas nosso objetivo aqui é entendermos a simbologia do anel fora da fantasia, e o porquê que Tolkien escolheu um círculo para representar o Poder. Isto nos leva ao terceiro tipo de Poder, que é o poder intelectual.

A palavra Poder em sua etimologia mais imediata é poder algo, é ter a capacidade sobre alguma coisa, ou seja, o poder em si mesmo não existe, ele sempre atua sobre um objeto, e esse objeto pode ser de natureza física ou mental, ideal. Porém, todo poder se concentra em um ponto de ação – até porque não se pode tudo ao mesmo tempo e o resto não é levado em consideração. Isto nada mais é que a abstração.

A abstração é uma das principais características da consciência, sem ela nenhum conhecimento sistematizado é possível. Se eu penso em tudo ao mesmo tempo, na realidade eu não estou pensando em nada. Isto também vale para ações concretas, ou seja, não é possível levantar a mesa, a cadeira, o notebook e a câmera tudo ao mesmo tempo, é necessário que eu ponha meu foco em um objeto específico para que eu possa agir sobre ele. Portanto, a abstração é o processo de criar o conceito e o símbolo é a forma ou a representação mental desse conceito. O que o símbolo faz é facilitar que o pensamento penetre no que está além, no que a linguagem humana não pode penetrar diretamente. O processo cognitivo que se dá na abstração é simples: nós capitamos primeiro as coisas pelos dados dos sentidos, logo em seguida nós os articulamos com um mundo de significados que é independente da presença dos objetos e até mesmo da existência no mundo real. Por exemplo, o número “5” é uma abstração de uma quantidade, independente dos objetos que ele representa, pode ser cinco maças, cinco dedos, cinco pessoas e assim infinitamente. O que temos que ter em mente é que a inteligência por trás do símbolo se dá pela semelhança, pela analogia que fazemos com outros símbolos que conhecemos.

Susanne Langer em seu livro “Sentimento e Forma” nos deixa claro isto:

“A função da ‘semelhança’ é dar às formas uma nova corporificação em ocasiões puramente qualitativas, irreais, libertando-as de sua corporificação normal das coisas reais, de forma que elas possam ser reconhecidas por si mesmas e que possam ser livremente concebidas e compostas tendo em vista o alvo fundamental do artista – a significação, ou a expressão logica.

Todas as formas na arte, então, são formas abstraídas; seu conteúdo é apenas uma semelhança, uma pura aparência, cuja função é torná-las, também, aparentes – mais livres e inteiramente aparentes do que poderiam ser se fossem exemplificadas num contexto de circunstâncias reais e de interesses carregados de ansiedade. É nesse sentido elementar que toda arte é abstrata. Sua própria substância, qualidade sem significação prática, é uma abstração da existência material;” LANGER, Susanne K. Sentimento e forma. São Paulo: Perspectiva. Pg 53.

Essa característica é basicamente o que nos diferencia dos outros animais, pois se não tivéssemos a capacidade de abstração seria muito difícil pensar, pois toda experiencia do conhecimento, inclusive do imediato, o intuitivo, implica a necessidade de separação. Mas também devemos levar em consideração a contradição inerente desta condição, porque ao pensar nós podemos separar uma parte do todo, e fazer de conta que os outros aspectos não percebidos não existem. Acontece que, uma vez que a abstração separa duas coisas, nós tendemos a acreditar que elas são separadas na realidade. É aí que, simbolicamente, o anel efetiva seu Poder, pois ele cria um cerco tautológico na consciência, onde a realidade se explica por um número reduzido de símbolos, limitando a inteligência individual.

Capítulo 2
Filosofia Tautológica: o aprisionamento da consciência.

Primeiro precisamos entender o que é filosofia e como ela influencia o indivíduo, mesmo que ele não tenha consciência dessa influência; e como o termo tautologia pode representar perfeitamente o Poder do Anel. A filosofia é basicamente um guiamento da consciência. É um conjunto de ideias, conceitos e imagens que guiam a consciência individual a agir dessa ou daquela maneira. No entanto, ao contrário da ciência que busca generalizações empíricas, a filosofia busca esclarecer conceitos básicos que usamos para pensar. A tautologia, por sua vez, tem um significado ambíguo, ela tanto representa um vício na linguagem, como também uma “verdade necessária”, que, com o conjunto logico das ideias, e uma abstração precisa da realidade, pode ser facilmente corrompida e manipulada – entenderemos como esse processo de perversão da verdade se efetiva em breve. Por hora podemos focar em entender que vicio da linguagem é basicamente uma redundância, ou seja, uma repetição de ideias, expostas de diferentes formas, mas que no fundo não agregam valor qualitativo, apenas quantitativo. Portanto, a Filosofia Tautológica é um símbolo articulado que forma a consciência do indivíduo de tal maneira que o força a repetir um ciclo logico de conceitos determinado por aquela filosofia em particular, é basicamente uma monomania (é uma forma de fixação obsessiva ou mania exclusiva, caracterizada pela concentração total e intensa em uma única ideia, pensamento ou tema, ignorando outros aspectos da vida. No século XIX, era vista como uma “insanidade parcial” ou loucura focalizada em uma mente aparentemente sã). Em outras palavras, o raciocino se limita a alguns conceitos, que nada mais são do que abstrações, porém o indivíduo toma isso como toda verdade universal e esquece que esses conceitos são apenas uma parte de um todo muito maior que ele não está levando em consideração, e que muitas vezes não é um reflexo direto da realidade, mas um reflexo da própria abstração que ele fez.

Aldous Huxley, em seu livro “As Portas da Percepção”, explica que a consciência é mais eliminativa do que produtiva. O que isso significa? Para evitar que haja uma sobrecarga no cérebro a consciência elimina o excesso de informações, memórias e conhecimentos para que o cérebro foque na sobrevivência, no que tem utilidade prática no momento. Ele diz:

 “A fim de formular e expressar os conteúdos dessa consciência reduzida, o homem inventou e submeteu a uma elaboração infinita aqueles sistemas de símbolos e filosofias implícitas que chamamos de línguas. Cada indivíduo é a um só tempo o beneficiário e a vítima da tradição linguística no seio da qual nasceu – é seu beneficiário na medida em que a língua lhe dá acesso aos registros acumulados das experiências de outras pessoas, e é sua vítima na medida em que a mesma língua confirma, no indivíduo, a crença de que a consciência reduzida é a única consciência, assombrando o seu senso de realidade e criando nele a tendência quase inevitável de substituir os dados pelos conceitos, as coisas reais pelas palavras.” HUXLEY, Aldous. As portas da percepção. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2015. Pg. 21.

Assim sendo, o que podemos designar “Filosofia Tautológica” não é uma filosofia específica, mas sim um modo de estruturar ideias, que em última instancia prende o raciocínio do indivíduo, ou seja, é toda filosofia que explica a si mesma, esquecendo todo o resto, inclusive ideias que possam contradizê-la. Portanto, ela abstrai um ou alguns aspectos da realidade e diz que aquilo é tudo que existe, e depois disso não avança, sempre retorna aos mesmos pontos iniciais que ela já tinha apresentado, de formas e contextos diferentes, porém sempre voltam aos mesmos pontos de apoio; assim ela consegue fechar a consciência individual em um círculo tautológico, um círculo vicioso autoexplicativo, um círculo irreal, mas que se parece real, pois ela, já impregnada na consciência, se intitula como a única realidade existente.

Capítulo 3
Ouroboros e a perversão da Verdade.

A serpente que devora a própria cauda é um dos símbolos mais antigos e semanticamente densos da história. Isto se dá pela sua capacidade singular de condensar, numa única figura, múltiplos níveis ontológicos, cosmológicos e antropológicos. Ele não só representa um ciclo temporal de vida e morte, geração e corrupção, mas uma estrutura do real, um princípio que é ao mesmo tempo começo e fim, a totalidade que se autocontém.

O símbolo visual do ouroboros data de 1400 a.C. mas o termo, ou seja, o conceito do símbolo, aparece depois. Podemos reconhecer conceitos semelhantes durante toda a história. Por exemplo: na substância primordial de Anaximandro, o “Ápeiron”; ou com Heráclito que dizia “Do Um provém o Múltiplo, do Múltiplo provém o Um”; a Suprema Unidade no Hinduísmo; também com Blaise Pascal, filosofo francês do século XVII, que sintetizou a ideia de que todo o universo está contido na Unidade. Todos esses exemplos, e outros não mencionados, se direcionam ao mesmo referente, analisando-o sobre formas e aspectos diferentes. Platão, no diálogo Timeu, descreve o conceito da seguinte maneira:

“Ora, no que diz respeito ao ser vivo destinado a abarcar no interior de si mesmo todos os seres vivos, a forma apropriada seria a que compreende dentro de si mesma todas as formas que existem; portanto, ele lhe conferiu uma forma redonda, […] E no seu centro ele instalou [uma] alma, estendida por ele por todo o corpo, e com a qual envolveu o exterior do corpo; e como um círculo girando num círculo, ele estabeleceu um céu único e solitário, cuja própria excelência o capacita a conservar sua própria companhia, prescindindo de qualquer outra coisa ao seu lado, bastando-se a si mesmo como familiar e amigo. E, em função de tudo isso, ele o gerou para ser um deus bem-aventurado” PLATÃO. Diálogos V. São Paulo: Edipro, 2022. Pg. 203/204.

O nosso filosofo Mario Ferreira dos Santos endossou o conceito em seu livro “Tratado de Simbólica”. Ele diz:

“Na posição henológica, a sequência dos raciocínios seria a seguinte: não há pluralidade que na base não se funde na unidade, pois se a negássemos totalmente cairíamos no nada. Portanto, a pluralidade exige a prioridade da unidade, o que, ontologicamente, não pode caber a menor dúvida.” SANTOS, Mário Ferreira dos. Tratado de simbólica. São Paulo: É Realizações, 2016. Tema V, artigo 2.

Podemos perceber que o conceito original de Unidade se refere sempre a algo transcendente, que está além do ser humano, algo que só pode ser vislumbrado através de conceitos universais. No entanto, essa ideia vai progressivamente mudando ao longo do tempo. Porém, é a partir do renascimento no século XIV, com a ideia de que o Homem é a medida de todas as coisas, o conceito se perverte. O que antes era passivamente observado e descrito, fora do alcance da ação prática do homem, apenas acessível pela contemplação, passa, após o renascimento, a ser uma filosofia da ação, uma filosofia do método. A Unidade Suprema é substituída pelo Homem. O Homem agora está no centro do universo, e seu proposito não é mais ser passivo à realidade, à verdade, mas modificá-la a sua imagem e semelhança.

Essa ideia se reflete no Método Cartesiano de René Descartes, que busca através da dúvida radical chegar à uma verdade indubitável. O Método dele resulta na separação de mente e corpo, coisa pensante e coisa extensa (res cogitans, res extensa). Esse trecho mostra como ele chegou a essa conclusão:

“Suporei, pois, que há não um verdadeiro Deus, que é a soberana fonte de verdade, mas certo gênio maligno, não menos astuto e enganador que poderoso, que empregou toda sua indústria em enganar-me. Pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores que vemos não passam de ilusões e enganos de que se serve para surpreender minha credulidade. Considerarei a mim mesmo como não tendo mãos, nem olhos, nem carne, nem sangue, como não tendo nenhum sentido, mas crendo falsamente ter todas essas coisas.” DESCARTES, René. Meditações metafísicas. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2016. Meditação Primeira.

No capítulo seguinte ele continua:

“Eu então, pelo menos, não sou algo? Mas já neguei que tivesse algum sentido ou algum corpo. Hesito, não obstante, pois o que resulta disso? Sou de tal forma dependente do corpo e dos sentidos que não posso existir sem eles? Mas persuadi-me de que não havia absolutamente nada no mundo, de que não havia nenhum céu, nenhuma terra, nenhum espírito, nenhum corpo; então não me persuadi também de que eu não existia? Decerto não, eu existia sem dúvida, se me persuadi ou se somente pensei algo. […] De sorte que, após ter pensado bem nisso e ter cuidadosamente examinado todas as coisas, é preciso enfim concluir e ter por constante que esta proposição, Eu sou, eu existo, é necessariamente verdadeira todas as vezes que a pronuncio ou que a concebo em meu espírito”. DESCARTES, René. Meditações metafísicas. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2016. Meditação Segunda.

Ora, se levarmos a sério esta ideia de que meu ‘verdadeiro eu’ só existe no momento quando pensa que existe é mais real do que minha existência chegaremos à conclusão de que o pensamento é a própria realidade, e de que o ato subjetivo de pensar é o que determina a verdade. Sem contar que fica implícito que a coisa extensa é uma criação humana, pois a extensão de qualquer coisa que exista exige uma medição, mas toda medição é uma atividade eminentemente subjetiva, que só os seres humanos fazem. Descartes não percebe que as medidas são apenas uma abstração, e tudo que existe precisa ser alguma coisa antes de poder ser medido.

O que acontece com o indivíduo que se impregna dessa filosofia é que acontece uma inversão no seu modo de perceber a realidade, ou seja, o dado objetivo que é estável, verificável e que nos assegura a verdade se torna falso, e o pensamento que é inconstante, incerto e reativo se torna a fonte da verdade; o que resulta disto é um subjetivismo radical, que irá culminar em Kant, que desenvolverá toda a sua filosofia no princípio de que não podemos conhecer nada em si mesmo, apenas captaremos fenômenos que nos causam uma sensação. O que Kant faz é nos levar elegantemente de volta para a caverna, de onde só conseguiremos ver sombras refletidas nas paredes.

Kant é um assunto denso que pretendo tratar com mais detalhes em outro texto, mas por hora extraímos dele o que precisamos: no subjetivismo radical o indivíduo tem seu princípio de individuação nele mesmo, ou seja, ele se autocontém – assim como o ouroborus; é uma mente que supostamente consegue abarcar o conjunto da realidade, e domina as leis do universo e que, portanto, tem a capacidade de planejar o mundo e impor sua vontade.

Se o indivíduo não precisa prestar constas com a verdade objetiva, o senso de responsabilidade se dissolve, pois a verdade subjetiva é anônima, e o anonimato tem um potencial muito grande de corromper o caráter. O anonimato leva à irresponsabilidade, e esta, por sua vez, aponta para uma das principais características do anel: a invisibilidade.

Capítulo 4
A invisibilidade como isenção de responsabilidade.

A essência da corrupção pelo anel está na possibilidade de dar muito poder ao portador, mas isentá-lo da responsabilidade das consequências de seus atos. Vemos durante toda a história Gandalf, Galadriel, Aragorn recusarem até mesmo de tocar o anel, porque sabiam que a tentação de se corromper era maior do que a força de suas vontades; mesmo que à princípio tivessem boas intenções, cedo ou tarde se corromperiam. Os Hobbits resistiam melhor à esta tentação, porque é da natureza deles não ter muitas ambições, são um povo simples, mas até eles se corrompem com o tempo.

Como podemos traduzir este símbolo da invisibilidade para a nossa realidade? Para qual experiencia este símbolo aponta? Podemos nos imaginar, por um momento, como portadores do anel, com a capacidade de sermos invisíveis. Qual a primeira coisa que vem a sua mente quando pensa na possibilidade de ser invisível? O que faria com esse poder? Você se manteria justo? Certamente surgem muitas ideias, mas a maioria delas são ilícitas e imorais. Aí que está a corrupção pelo anel. Hoje, evidentemente, temos uma centelha desse poder em nossas mãos, com celulares e internet a disposição.

Platão, em seu livro A República, conta o mito de Giges de Lídia, que era um pastor de ovelhas a serviço do rei, que após um terremoto encontra na cratera um anel de ouro na mão de um gigante, e esse anel dá a ele o poder da invisibilidade, e com esse poder ele mata o rei e assume o trono. A semelhança simbólica com Senhor dos Anéis é muito grande, e está no cerne da questão filosófica desse mito que o fundamento da justiça está na consciência da responsabilidade individual, é a justiça que equilibra a alma e a conduta, e não se pode ser justo buscando as recompensas e ignorando as consequências. A justiça é algo intangível, imaterial, ou seja, um valor universal, mas ela  só se efetiva através da ação humana, que se guia pela verdade objetiva que se apresenta nas situações, nas experiencias, nos fatos, ou seja, na realidade que nos cerca e não podemos ignorar as implicações dessa estrutura, senão relativizaremos tudo e perderemos a noção de justiça, entrando no tempo da barbárie.

Mas você deve estar se perguntando como a ideia de um filosofo se espalha, sendo que a grande maioria não leu sequer uma palavra de sua filosofia. Sabemos que com o tempo essas ideias se incorporam na sabedoria popular, ou seja, no senso comum, que geralmente são aceitas sem questionamento por conta do peso da maioria pensar dessa maneira. Arthur Schopenhauer nos explica como se dá esse processo:

“O que se chama opinião geral é, se bem considerado, a opinião de duas ou três pessoas; e nos convenceríamos disso, se pudéssemos observar como nasce uma tal opinião universalmente válida. Descobriríamos, então, que foram duas ou três pessoas que primeiramente a aceitaram, apresentaram e afirmaram e que os outros tiveram a benevolência de confiar que elas a haviam examinado a fundo prejulgando a suficiente capacidade destes, alguns outros primeiramente a aceitaram. E nesses acreditaram muitos outros, cuja indolência lhes aconselhou melhor crer de uma vez do que buscar comprovações fatigantes. Assim cresceu dia a dia o número de tais adeptos preguiçosos e crédulos: pois como a opinião já tinha um bom número de vozes a seu favor, os apoiadores posteriores atribuíram isso ao fato de que ela só teria podido obtê-las pela validade de seus fundamentos. Os remanescentes se viram, então, obrigados a admitir o que era geralmente admitido, para não passar por cabeças inquietas que se rebelaram contra opiniões universalmente válidas e por sujeitos impertinentes querendo ser mais inteligentes que o mundo todo. A essa altura, o consentimento se tornou obrigatório. Daí em diante, os poucos capazes de julgar são forçados a se calar; e os que podem falar são aqueles que são completamente incapazes de ter opiniões e um juízo próprio, sendo o mero eco da opinião alheia.” SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de ter razão. Petrópolis: Vozes de Bolso, 2023. Pg. 38

A incapacidade de rastrear essas ideias na consciência e examiná-las é o que dá força a filosofia tautológica, pois a realidade não vem organizada e estruturada em uma linguagem racional, ela é demasiadamente confusa e difusa, e só depois do impacto que ela nos deixa é que podemos raciocinar sobre ela; e para raciocinar sobre ela é necessário ter vocabulário mental para dar a definição certa às experiencias, e só se adquire vocabulário com leitura, pois os livros são a ponte para a verdade.

Epílogo
O que não é filosofia tautológica?


A realidade concreta se compõe de um inumerável conjunto de acidentes que são contingentes, mas concorrem para que a situação real aconteça. É justamente pela presença simultânea e o cruzamento inseparável dessa multidão de linhas acidentais que nós podemos distinguir a realidade da fantasia. Em outras palavras, a realidade concreta é composta de um todo complexo, uma infinidade de perspectivas, que não podem ser todas absorvidas conceitualmente. O máximo que podemos fazer é usar os recortes que fazemos, ou seja, os símbolos e conceitos para entender a realidade, mas eles não são a realidade. Um exemplo de filosofo moderno que toma os conceitos como a própria realidade é Jacques Derrida que acredita que “não há nada fora do texto”. A diferença da filosofia tautológica é que ela esquece que é apenas um recorte, uma perspectiva, e age como se fosse a própria realidade concreta. Por outra lado, a filosofia que poderíamos dizer que é considerada normal, reconhece que faz parte de um todo muito maior, e apenas contribui com suas descobertas, submissa à Verdade impessoal e eterna. Nesse sentido podemos seguir a máxima de Aristóteles:

“A investigação sobre a verdade é difícil por um lado, mas fácil por outro. Sinal disso é nem ser possível captá-la plenamente, nem falhar completamente em alcançá-la, mas cada um dizer algo sobre a natureza que, tomado isoladamente, contribui nada ou pouco para ela, mas, quando tudo é reunido, gera-se algo vultoso. De modo que parece vigorar algo como o dito no adágio “quem erraria a porta? Nesse aspecto, ela seria fácil. Mas alcançar algum todo sem poder atingir a parte alvejada revela a dificuldade da empreitada. E tendo a dificuldade essa dupla face, talvez sua causa não esteja nos fatos, mas em nós, pois tal como os olhos do morcego estão para a luz do dia, a inteligência da nossa alma está para o que, por natureza, é o mais evidente de tudo.” ARISTÓTELES. Metafísica. Petrópolis: Vozes, 2024. Pg. 45

Para Aristóteles, uma ciência é definida pelo seu objeto formal, ou seja, a ciência é um conhecimento adquirido pelas causas. O objetivo de qualquer ciência é claro: clarificar termos, distinguir níveis, estabelecer uma ordem causal, mostrar hierarquias. Isso será muito bem demonstrado com João de São Tomas, que vai refinar essa ideia e estabelecer a estrutura do conhecimento como Formal Motivo e Formal Terminativo. Isto é, toda ciência reflete a ordem das perguntas que são feitas, dando a ela um Formal Motivo; ao passo que o conteúdo da ciência dá a ela um Formal Terminativo. Se qualquer área do conhecimento perde isto da consciência, ou seja, esquece que o conhecimento reflete a ordem das perguntas e não a ordem da realidade, ela corre o risco de entrar no campo da tautologia. Com isso em mente temos a possibilidade de identificar quando uma área do conhecimento está pendendo para a tautologia ou é completamente tautológica – no sentido do termo que apresentei aqui.

Tolkien tinha plena consciência da realidade ao qual sua fantasia estava alicerçada, e através do simbolismo escreveu uma ficção tão humana quanto qualquer livro de história, e tão atual quanto foi na sua época. Tolkien sabia que quem controla os símbolos, controla o destino das próximas gerações. É importante rastrear as ideias que compõem a retorica do senso comum, pois é pela retorica que se move o mundo.

Agora que tomamos consciência da importância do símbolo sabemos que ela aponta para uma realidade da nossa existência, e o poema principal do anel se transfigura numa compreensão muito profunda da realidade que é acessível a todos nós.

“Um Anel que a todos rege, Um Anel para achá-los,
Um Anel que a todos traz para na escuridão atá-los,
Na terra de Mordor, onde as Sombras se deitam.”

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